Em entrevista a Pablo Marçal publicada em 30/09/2026, quatro dias antes do primeiro turno, Daniella Marques, ex-presidente da Caixa e responsável pelas propostas econômicas da campanha de Flávio Bolsonaro (PL), disse que “o Lula nos endivida” e que, se Flávio perdesse, o juro iria “para 18”, citando um relatório do Morgan Stanley com “o câmbio ir para seis e o juro para 18”. O relatório existe: foi divulgado em 26 e 27/08/2026, segundo a Bloomberg Línea e a IstoÉ Dinheiro. Em dois pontos, porém, pelo que as reportagens mostram, ele não diz o que a fala sugere.
O corte mostra a analogia da dívida pública com consignado e cartão de crédito, a menção à “dominância fiscal” e a previsão de dólar a R$ 6 e juro a 18%. A matéria identifica o relatório, mostra os três cenários do banco e aponta onde a fala se afasta do documento.
O que foi dito
- (por volta de 0:00) Daniella Marques afirmou que “o Lula nos endivida, como se você pegasse um consignado, depois você vai pro rotativo, aí você aumenta mais a sua dívida”, até o “segundo cartão”.
- (por volta de 0:12) Segundo ela, “hoje, quando o Tesouro faz um leilão, não aparece ninguém para financiar”.
- (por volta de 0:18) “O Brasil só não entrou no que se chama tecnicamente dominância fiscal porque tem 50% de chance do Flávio ganhar a eleição daqui a 4 dias”, disse.
- (por volta de 0:30) “Se ele perder vai para 18 [o] juro. Isso não é a Dani que tá dizendo, foi o Morgan Stanley que soltou um relatório dizendo que o Brasil precisa de uma mudança de modelo econômico, senão a previsão é o câmbio ir para seis e o juro para 18.”
Contexto e o outro lado
O relatório existe e tem três cenários. O estudo do Morgan Stanley sobre o Brasil pós-eleição foi noticiado pela Bloomberg Línea (26/08), pela IstoÉ Dinheiro (27/08) e pelo InfoMoney, reproduzido pela TradeMap (27/08). No cenário pessimista para 2027, o dólar vai a R$ 6, a Selic a 15,50%, o Ibovespa a 130 mil pontos e os juros longos a 18%, segundo a Bloomberg Línea, a TradeMap e a AUVP Analítica. No cenário-base, o dólar fica em R$ 5,25; no otimista, cai a R$ 4,50, com juro longo de 12%, segundo a Bloomberg Línea e a AUVP.
O “juro a 18” não é a Selic. No cenário ruim do banco, a taxa básica projetada é 15,50%. Os 18% são a taxa do título prefixado de longo prazo (o DI longo, ou a NTN-F com vencimento em 2037), segundo a Bloomberg Línea e a AUVP Analítica. Hoje a Selic está em 13,75%, após o quinto corte seguido, em 16/09/2026, segundo O Povo e o InvestNews.
Pelas quatro reportagens consultadas, o gatilho é o plano fiscal, não o nome do vencedor. Segundo a IstoÉ Dinheiro, o cenário de estresse se materializa se “o próximo governo” não apresentar um plano de consolidação fiscal consistente a partir de 2027. A Bloomberg Línea cita o banco: “O ajuste fiscal em si pode ser gradual, desde que os investidores acreditem que o objetivo final seja confiável”. Na TradeMap, o cenário pessimista é aquele em que “o vencedor propõe um corte de gastos tímido”, seja ele quem for. Nenhuma das reportagens traz a expressão “mudança de modelo econômico” nem associa o cenário ruim a um candidato. A leitura “se ele perder, vai para 18” é de Daniella, não do relatório.
Dominância fiscal e os leilões do Tesouro. Dominância fiscal é a situação em que a dívida pública cresce tanto que a alta de juros deixa de conter a inflação e passa a alimentá-la, pelo custo que impõe ao próprio governo, segundo a Nord Investimentos e o Mais Retorno. Sobre leilões em que “não aparece ninguém”, há um episódio documentado: em 16/03/2026, o Tesouro cancelou os leilões de títulos prefixados e de NTN-B marcados para 17 e 19 de março e passou a fazer leilões de compra e venda para dar suporte ao mercado, após a disparada dos juros futuros, segundo o Estadão, via Diário do Grande ABC, e o Times Brasil. A redação não localizou leilão cancelado ou sem comprador em setembro de 2026, quando a entrevista foi gravada.
Os “50%” e o que veio depois. Quando ela falou, o Datafolha de 24/09 dava Lula 47% e Flávio 45% no segundo turno, segundo a CNN Brasil e o Poder360, e o dólar fechou a R$ 5,2165 em 02/10, véspera da votação, segundo o Jornal do Comércio e o Diário do Grande ABC. No primeiro turno, em 04/10, Flávio teve 47,03% dos votos válidos e Lula, 45,16%, segundo o Diário do Grande ABC e a Folha de Pernambuco. Em 05/10, o dólar caiu 4,12%, a R$ 5,0018, segundo o Jornal do Comércio e o Times Brasil. O segundo turno é em 25/10/2026; segundo as reportagens, o cenário vale para qualquer vencedor que não apresente o plano.
Fatos e fontes
| O que foi dito | Fontes |
|---|---|
| Relatório do Morgan Stanley divulgado em 26–27/08/2026, com três cenários para 2027 | Bloomberg Línea · IstoÉ Dinheiro · TradeMap/InfoMoney |
| Cenário pessimista: dólar R$ 6, Selic 15,50%, juro longo 18%, Ibovespa 130 mil | Bloomberg Línea · TradeMap/InfoMoney · AUVP Analítica |
| Cenário-base: dólar R$ 5,25; otimista: R$ 4,50 e juro longo 12% | Bloomberg Línea · AUVP Analítica · IstoÉ Dinheiro |
| Selic em 13,75% desde 16/09/2026, quinto corte seguido | O Povo · InvestNews |
| Tesouro cancelou leilões de prefixados e NTN-B em 16/03/2026 | Diário do Grande ABC/Estadão · Times Brasil |
| Datafolha de 24/09/2026: Lula 47% × Flávio 45% no 2º turno | CNN Brasil · Poder360 |
| Dólar a R$ 5,2165 em 02/10/2026, véspera do 1º turno | Jornal do Comércio · Diário do Grande ABC |
| 1º turno em 04/10/2026: Flávio 47,03% × Lula 45,16%; 2º turno em 25/10 | Diário do Grande ABC · Folha de Pernambuco |
| Dólar caiu 4,12% em 05/10/2026, a R$ 5,0018 | Jornal do Comércio · Times Brasil |
Falas, imagens e créditos
- Trecho da entrevista de Pablo Marçal com Daniella Marques, canal Pablo Marçal (YouTube, 30/09/2026) https://youtu.be/a_P9ULCIRBA
- Imagem destacada: Daniella Marques em 20/09/2022, foto do Conselho Nacional do Ministério Público, licença CC BY-SA 2.0, via Wikimedia Commons.
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