A ex-deputada federal Joice Hasselmann, que foi líder do governo Jair Bolsonaro no Congresso em 2019, declarou voto em Lula (PT) no 2º turno de domingo (25/10/2026), contra Flávio Bolsonaro (PL), em vídeo publicado nas redes sociais na quinta-feira (22/10/2026), segundo o Correio Braziliense e o Terra. “Voto Lula, sem meias palavras, sem hipocrisia”, disse. No mesmo dia, em entrevista, ela atribuiu a Jair Bolsonaro o episódio de julho de 2021 em que apareceu ferida em casa; as duas investigações da época não encontraram participação de terceiros.
Por que isso importa: a três dias da votação, uma ex-aliada de primeira hora do bolsonarismo pede voto no adversário histórico dela e faz acusações graves à família Bolsonaro. O leitor precisa separar três coisas: o que Joice disse de fato, o que dessa história tem registro público (votações, cargos, inquéritos) e o que é só afirmação dela. E medir o peso do gesto: Joice não tem mandato desde 2023 e teve 1.673 votos na última eleição que disputou.
O que aconteceu
O vídeo. Na gravação, Joice faz um mea-culpa sobre 2018. “Em 2018, acreditei em Bolsonaro, sim”, diz, segundo o Correio Braziliense e o Terra. E segue: “Mas ainda no primeiro ano do governo Bolsonaro, minhas esperanças de um país melhor foram embora. Eu vi o clã por dentro.” Depois: “Eu errei em ajudar, mas não poderia ficar de braços cruzados.” No mesmo vídeo, ela afirma ter sido a primeira a denunciar a “minuta do golpe”, conforme os dois veículos; esta redação não encontrou registro público que confirme a primazia. A conclusão é o voto: “Apesar de todo o meu histórico de enfrentamento ao PT, domingo, dia 25, eu, Joice Hasselmann, voto Lula”, disse, segundo o Terra e o URB News. Ela avisa que o apoio acaba na urna: “Dia 26, volto ao debate de ideias”, segundo o Terra e o Diário do Grande ABC, e diz que volta à oposição.
A virada no mesmo dia. Horas antes, no programa Almoço do MyNews, Joice disse que ainda estava indecisa e que considerava votar nulo, segundo o MyNews; o URB News registra que ela havia falado em voto nulo e mudou de ideia.
A entrevista. Em entrevista ao jornalista Leonardo Attuch, da TV 247, publicada em 22/10/2026, ela relembrou o episódio de 2021 e disse que Bolsonaro “mandou me matar”, segundo o Correio Braziliense e o Meio News. A frase é afirmação dela. Nenhuma decisão judicial atribui a Jair Bolsonaro o que aconteceu com Joice em 2021.
Os números e a linha do tempo
- 2018: eleita deputada federal por São Paulo pelo PSL com 1.078.666 votos, a segunda mais votada do estado, atrás de Eduardo Bolsonaro, segundo a Exame e o Poder360.
- 17/10/2019: Bolsonaro a tira da liderança do governo no Congresso um dia depois de ela apoiar Delegado Waldir (PSL-GO) na liderança do partido na Câmara, posto que o presidente queria para o filho Eduardo, na briga com o grupo de Luciano Bivar; o senador Eduardo Gomes (MDB-TO) assume, segundo a Exame e o Poder360.
- 04/12/2019: na CPMI das Fake News, acusa Eduardo e Carlos Bolsonaro de comandar ataques virtuais a adversários, o chamado “gabinete do ódio”, segundo o Diário do Nordeste e o Jornal Opção.
- 2020: disputa a Prefeitura de São Paulo pelo PSL e fica fora do 2º turno, segundo A Gazeta e o Poder360.
- 18/07/2021: acorda ferida no apartamento funcional, em Brasília (detalhes abaixo).
- 2022: tenta a reeleição pelo PSDB e tem 13.679 votos; não se elege, segundo o Poder360 e o SBT News.
- 2024: candidata a vereadora em São Paulo pelo Podemos, declara apoio a Pablo Marçal (PRTB) para prefeito em agosto e tem 1.673 votos; depois anuncia que deixa a disputa eleitoral, segundo o Poder360, a InfoMoney e o TNH1.
O caso de 2021: o que tem registro
O que ela relatou. Joice acordou em 18/07/2021 com fraturas no rosto e ferimentos nas costelas e nos joelhos, no apartamento funcional da Câmara, sem lembrar o que havia acontecido, segundo o Poder360 e o Correio Braziliense. Ela disse, na época, acreditar ter sido agredida.
O que as investigações concluíram. A Polícia Legislativa da Câmara analisou 16 câmeras do prédio e informou, em 27/07/2021, que a deputada não saiu do imóvel de 15 a 20 de julho e que nenhuma pessoa não autorizada entrou no local; o inquérito foi enviado ao Ministério Público Federal, segundo nota da Câmara e o Correio Braziliense. Em 13/08/2021, a Polícia Civil do Distrito Federal concluiu que ela sofreu “queda da própria altura”, possivelmente por efeito de remédio para dormir, e que não houve elementos de agressão, segundo o Poder360 e o Metrópoles. Joice contesta essa conclusão. A acusação de que Bolsonaro mandou matá-la é feita por ela; nenhuma das duas apurações apontou participação de terceiros.
O que dizem os dois lados
O que diz Joice Hasselmann. Que vota em Lula pela regra do jogo, não por adesão ao PT: “Perder uma eleição, tudo bem. Perder a democracia, jamais”, disse no vídeo, segundo o Correio Braziliense e o Meio News. E que fala como quem esteve dentro do governo: a decisão, segundo o Correio Braziliense e o Terra, vem do que ela diz ter visto no primeiro ano da gestão Bolsonaro.
O que dizem Flávio e Jair Bolsonaro. Até o fim da tarde de 23/10/2026, nenhum dos veículos consultados (Correio Braziliense, Terra, MyNews, Diário do Grande ABC, Brasil 247) registrava resposta de Flávio, de Jair Bolsonaro ou da campanha do PL à declaração. O registro público da relação é anterior: foi Bolsonaro quem tirou Joice da liderança em 2019, e em 2024 Eduardo Bolsonaro criticou o prefeito Ricardo Nunes por apoiar a candidatura dela a vereadora, segundo a Folha de Pernambuco e a IstoÉ.
Leitura da ANTÍTESE
A narrativa que circula é a da ex-bolsonarista que viu tudo por dentro e agora conta. Parte disso é registro: ela foi líder do governo, perdeu o cargo depois de apoiar Delegado Waldir contra Eduardo Bolsonaro na liderança do PSL e levou acusações à CPMI em 2019. Outra parte não é: a frase “mandou me matar” contraria as conclusões das duas investigações de 2021. Quem repete a acusação como prova está trocando testemunho por fato.
O peso eleitoral também é menor do que o barulho. Joice saiu de 1.078.666 votos em 2018 para 13.679 em 2022 e 1.673 em 2024. O que o gesto mostra é outra coisa: uma eleitora antipetista que, segundo ela mesma, vota contra um lado, não a favor do outro. Quantos eleitores de 2018 fazem o mesmo caminho é a pergunta que só a urna de domingo responde.
Fatos e fontes
| O que foi dito | Fontes |
|---|---|
| Joice declara voto em Lula em vídeo nas redes em 22/10/2026: “Voto Lula, sem meias palavras, sem hipocrisia”; “Eu vi o clã por dentro” | Correio Braziliense · Terra · Diário do Grande ABC |
| “Apesar de todo o meu histórico de enfrentamento ao PT […] voto Lula”; “Dia 26, volto ao debate de ideias” | Terra · URB News · Diário do Grande ABC |
| Indecisa e considerando voto nulo horas antes, no MyNews | MyNews · URB News |
| Na TV 247, diz que Bolsonaro “mandou me matar” (afirmação dela) | Correio Braziliense · Meio News · Brasil 247 |
| 1.078.666 votos em 2018, 2ª de SP atrás de Eduardo Bolsonaro; 13.679 em 2022 pelo PSDB | Exame · Poder360 · SBT News |
| Destituída da liderança do governo em 17/10/2019, após apoiar Delegado Waldir contra Eduardo Bolsonaro | Exame · Poder360 |
| CPMI das Fake News, 04/12/2019: acusa Eduardo e Carlos Bolsonaro de comandar ataques virtuais | Diário do Nordeste · Jornal Opção |
| 2020: fora do 2º turno em SP; 2024: vereadora pelo Podemos, apoio a Marçal, 1.673 votos | A Gazeta · Poder360 · InfoMoney · TNH1 |
| Polícia Legislativa: 16 câmeras, ninguém não autorizado entrou; inquérito ao MPF (27/07/2021) | Câmara dos Deputados · Correio Braziliense |
| PCDF, 13/08/2021: “queda da própria altura”, sem elementos de agressão | Poder360 · Metrópoles · Exame |
Créditos
- Imagem destacada: Jair Bolsonaro em reunião com a então deputada Joice Hasselmann e vice-líderes do governo no Congresso, Palácio do Planalto, 12/03/2019. Foto: Marcos Corrêa/PR, licença CC BY 2.0, via Wikimedia Commons.
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