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LULA: o que a ciência diz sobre o eleitor que não muda de ideia

Uma entrevistada na Paulista admite que o carro subiu, “mas mesmo aumentando, eu consegui comprar”. A matéria reúne os preços, a dívida das famílias e os estudos sobre dissonância cognitiva, raciocínio motivado e identidade partidária que explicam por que o mecanismo aparece nos dois lados.

Por Redação ANTÍTESE BRAZIL

Lula no lançamento oficial da campanha de 2026, em 16 de agosto de 2026

Uma entrevistada na Avenida Paulista, em São Paulo, admitiu que o carro ficou mais caro, “mas mesmo aumentando, eu consegui comprar”, e, perguntada se mudaria de opinião sobre o governo Lula, sinaliza que não. A cena está no vídeo “Desafio na Paulista: governo Lula é bom? Prove!”, publicado em 13/02/2026 por Lucas Pavanato, então vereador de São Paulo (PL) e eleito deputado federal em 04/10/2026 (Times Brasil, Tribuna de Jundiaí), com mais de 400 mil visualizações. Em maio, o Real Time Big Data mostrou o mesmo padrão em escala nacional: 69% dos eleitores de Lula dizem que a economia melhorou em relação ao governo Bolsonaro; 83% dos eleitores de Flávio Bolsonaro dizem que piorou, segundo a CNN Brasil e o Diário do Poder.

O vídeo usa o caso da Paulista para explicar, com estudos de psicologia e ciência política, por que fatos raramente mudam o voto; a matéria reúne os números, os estudos e a resposta do governo.

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O que foi dito

  • Cerca de 1:52, uma entrevistada que defende o governo reconhece que os carros subiram de preço: “mas mesmo aumentando, eu consegui comprar”. Na prévia (0:13), perguntada se mudaria de opinião diante de argumentos contrários, sinaliza que não, sem resposta falada.
  • Cerca de 5:02, Peter Ditto, psicólogo social da Universidade da Califórnia em Irvine, em palestra de 2016 (tradução livre): “As pessoas acham que pensam como cientistas, mas pensam muito mais como advogados.”
  • Cerca de 5:48, Brendan Nyhan, cientista político, em palestra em Harvard (2012, tradução livre): o padrão dos estudos é “uma resistência às correções justamente no grupo que mais quer não acreditar nelas”.
  • Cerca de 9:54, Lula, em entrevista ao Domingo Espetacular (Record), ao ouvir que os números e a sensação das pessoas não batem, compara com a sensação térmica da previsão do tempo: “Eu queria que pro salário fosse assim: tá cem reais, com sensação de…”. Cerca de 10:10: “Está caro porque mudou o nosso hábito de comer, porque o juro está caro”.

Contexto e o outro lado

O que os preços mostram. Um Volkswagen Gol zero-quilômetro custava R$ 20.600 em 2013 e R$ 68.500 em 2023, alta de mais de 200% em dez anos, segundo levantamento da Kelley Blue Book para a CNN Brasil (02/05/2023), reproduzido pela Itatiaia. A consultoria Bright Consulting calcula que o preço médio do carro novo subiu 125% desde 2016, contra inflação de 64% no período; em 2025, pela primeira vez em cinco anos, o carro subiu menos que a inflação (Terra, 14/11/2025; Tabela Carros).

Dívida, juros e bolso. Os juros médios do crédito livre para famílias chegaram a 61,7% ao ano em agosto de 2026, e a inadimplência das pessoas físicas, a 6%, maior nível desde março de 2011, segundo dados do Banco Central divulgados em 29/09 (Agência Brasil, SBT News). O endividamento alcançou 82% das famílias em julho, recorde pelo sexto mês seguido, e 84,9% entre quem ganha até três salários mínimos (CNC, via Agência Brasil e Metrópoles). Na Genial/Quaest de 15/07/2026, 68% disseram comprar menos do que há um ano; 21%, o mesmo; 10%, mais (Diário do Poder, Pardal Tech).

O que a ciência diz. Em 1954, Leon Festinger acompanhou um grupo que esperava o fim do mundo em data marcada; passada a data, os membros mais comprometidos reforçaram a crença e saíram a recrutar. O caso (“When Prophecy Fails”, 1956) deu origem à teoria da dissonância cognitiva (1957), segundo a Wikipédia e a Simply Psychology. Ziva Kunda mostrou em 1990, no Psychological Bulletin, que a pessoa chega à conclusão que deseja desde que consiga montar uma justificativa que pareça razoável (PubMed; Semantic Scholar). Em 2017, Dan Kahan e colegas aplicaram o mesmo problema numérico: com um creme para a pele como tema, os mais hábeis com números acertavam mais; com controle de armas, a polarização cresceu justamente entre os mais hábeis (Behavioural Public Policy; IDEAS/RePEc). Wood e Porter, com mais de 10 mil pessoas e 52 temas, não encontraram o “tiro pela culatra”: correções funcionam, ainda que pouco (Political Behavior, 2019; SSRN). Nyhan, Porter, Reifler e Wood mostraram, em 2019, que checagens corrigem a crença no fato sem alterar a avaliação do candidato (Universidade de Exeter; Universidade de Southampton).

Não é economia, é pertencer. Em “Democracy for Realists” (2016), Achen e Bartels sustentam que o voto nasce de identidades de grupo e lealdades partidárias, e que o eleitor ajusta até a leitura dos fatos a elas (Princeton University Press; LSE Review of Books). Lilliana Mason (“Uncivil Agreement”, 2018) mostra que a hostilidade cresce quando o partido se alinha a religião, raça e cultura (University of Chicago Press; New America). No Brasil, Samuels e Zucco (2018) descrevem o PT como o único partido que virou identidade de massa, com o antipetismo como espelho (Cambridge University Press; Universidade de Minnesota). O Datafolha de 2 a 4/12/2025 registrou 40% de petistas e 34% de bolsonaristas: 74% em um dos dois times (CNN Brasil; O Liberal).

O espelho e a resposta do governo. O viés não tem lado. Nos Estados Unidos, na semana da eleição de 2016, a fatia de republicanos que via a economia melhorando saltou de 16% para 49% (Gallup; Marketplace). Uma meta-análise de 51 estudos com mais de 18 mil pessoas, liderada por Ditto, encontrou viés partidário de tamanho quase igual entre progressistas e conservadores (UC Irvine; Perspectives on Psychological Science, 2019). Do lado do governo, Lula, na entrevista ao Domingo Espetacular exibida em 23/08/2026, citou a queda da inflação e do desemprego e atribuiu a “sensação” de carestia à mudança de hábitos de consumo e aos juros (O Povo; TVT News).

O que funciona e o que mudou depois. David Broockman e Joshua Kalla mostraram na Science (2016) que uma conversa de cerca de dez minutos, em que a pessoa é convidada a olhar pela perspectiva do outro, reduziu preconceito por pelo menos três meses entre 501 eleitores da Flórida (Princeton; NPR). No Datafolha de 28 a 30/09/2026, 78% se dizem totalmente decididos e 19% podem mudar; a certeza do voto é de 88% entre eleitores de Lula e 85% entre os de Flávio (Diário do Grande ABC; ABC+). No 1º turno, em 04/10/2026, Flávio teve 47,03% dos votos válidos e Lula, 45,16% (Poder360; Agência Senado); o 2º turno é em 25/10.

Fatos e fontes

O que foi ditoFontes
Real Time Big Data (2 a 4/05/2026, 2.000 eleitores): 69% dos eleitores de Lula dizem que a economia melhorou; 83% dos de Flávio, que piorouCNN Brasil · Diário do Poder
Gol 0 km: R$ 20.600 (2013) a R$ 68.500 (2023); carros de entrada mais de 200% mais caros em dez anos (KBB)CNN Brasil · Itatiaia
Preço médio do carro novo +125% desde 2016, inflação de 64%; em 2025 o carro subiu menos que a inflação (Bright Consulting)Terra · Tabela Carros
Juros do crédito livre às famílias em 61,7% ao ano; inadimplência de 6%, maior desde março de 2011 (BC, ago/2026)Agência Brasil · SBT News · Tribuna do Sertão
82% das famílias endividadas em julho de 2026, recorde; 84,9% até três salários mínimos (Peic/CNC)Agência Brasil · Metrópoles
Genial/Quaest (10 a 13/07/2026, 2.004 entrevistas, divulgada em 15/07): 68% compram menos que há um ano, 21% igual, 10% maisDiário do Poder · Pardal Tech
Festinger: “When Prophecy Fails” (1956) e a teoria da dissonância cognitiva (1957)Wikipédia · Simply Psychology
Kunda (1990): raciocínio motivado limitado pela capacidade de construir justificativaPubMed · Semantic Scholar · Wikipédia
Kahan et al. (2017): creme de pele × controle de armas; polarização cresce entre os mais hábeis com númerosBehavioural Public Policy · IDEAS/RePEc
Wood & Porter (2019): mais de 10 mil pessoas, 52 temas, sem “tiro pela culatra”Political Behavior · SSRN
Nyhan, Porter, Reifler & Wood (2019): checagem corrige o fato, não a avaliação do candidatoUniversidade de Exeter · Universidade de Southampton
Achen & Bartels, “Democracy for Realists” (2016); Mason, “Uncivil Agreement” (2018); Samuels & Zucco (2018)Princeton · LSE · Chicago · New America · Cambridge · Minnesota
Datafolha (2 a 4/12/2025, 2.002 entrevistas): 40% petistas, 34% bolsonaristas, 74% em um dos dois ladosCNN Brasil · Diário de Pernambuco · O Liberal
Gallup (nov/2016): republicanos que viam a economia melhorando foram de 16% para 49% na semana da eleiçãoGallup · Marketplace
Ditto et al. (2019): 51 estudos, mais de 18 mil pessoas, viés de tamanho semelhante nos dois ladosUC Irvine · Perspectives on Psychological Science
Entrevista de Lula ao Domingo Espetacular (Record), exibida em 23/08/2026; citou queda da inflação e do desempregoO Povo · TVT News
Broockman & Kalla, Science (2016): conversa de 10 minutos, 501 eleitores, efeito por 3 mesesPrinceton · NPR
Datafolha (28 a 30/09/2026, 2.506 entrevistas): 78% decididos, 19% podem mudar; certeza de 88% (Lula) e 85% (Flávio)Diário do Grande ABC · ABC+
Lucas Pavanato: vereador de São Paulo (PL) em 13/02/2026; eleito deputado federal em 04/10/2026 com 3.038.438 votosTimes Brasil · Tribuna de Jundiaí · BNews São Paulo
1º turno (04/10/2026): Flávio 47,03% × Lula 45,16% dos válidos; 2º turno em 25/10Poder360 · Agência Senado

Falas, imagens e créditos

  • Lucas Pavanato (então vereador de São Paulo, PL), “Desafio na Paulista: governo Lula é bom? Prove!” (YouTube, 13/02/2026): youtu.be/Isph4qViY9k. As falas dos entrevistados são deles; nenhum entrevistado é identificado nesta matéria.
  • UC Irvine, School of Social Ecology, palestra de Peter Ditto (01/11/2016): youtu.be/qlwJ1U4jfX4; Berkman Klein Center, Harvard, palestra de Brendan Nyhan (17/07/2012, licença CC BY): youtu.be/K3TRKPSmoZk. Falas em inglês em tradução livre.
  • Record, Domingo Espetacular, entrevista com Lula (exibida em 23/08/2026, publicada no YouTube em 24/08): youtu.be/kPsonuFUQJs; CNN Brasil, CNN Novo Dia (02/05/2023) e CNN Prime Time (14/04/2026); g1 / TV Globo, Bom Dia Brasil (11/08/2026); Jornal da Record (26/05/2026). Planos de apoio: Pixabay (licença Pixabay).
  • Imagem de capa: Lula no lançamento oficial da campanha de 2026, em São Bernardo do Campo (SP), 16/08/2026, Lula Oficial (Flickr), foto: Ricardo Stuckert, licença CC BY-SA 4.0, via Wikimedia Commons.

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