Uma entrevistada na Avenida Paulista, em São Paulo, admitiu que o carro ficou mais caro, “mas mesmo aumentando, eu consegui comprar”, e, perguntada se mudaria de opinião sobre o governo Lula, sinaliza que não. A cena está no vídeo “Desafio na Paulista: governo Lula é bom? Prove!”, publicado em 13/02/2026 por Lucas Pavanato, então vereador de São Paulo (PL) e eleito deputado federal em 04/10/2026 (Times Brasil, Tribuna de Jundiaí), com mais de 400 mil visualizações. Em maio, o Real Time Big Data mostrou o mesmo padrão em escala nacional: 69% dos eleitores de Lula dizem que a economia melhorou em relação ao governo Bolsonaro; 83% dos eleitores de Flávio Bolsonaro dizem que piorou, segundo a CNN Brasil e o Diário do Poder.
O vídeo usa o caso da Paulista para explicar, com estudos de psicologia e ciência política, por que fatos raramente mudam o voto; a matéria reúne os números, os estudos e a resposta do governo.
O que foi dito
- Cerca de 1:52, uma entrevistada que defende o governo reconhece que os carros subiram de preço: “mas mesmo aumentando, eu consegui comprar”. Na prévia (0:13), perguntada se mudaria de opinião diante de argumentos contrários, sinaliza que não, sem resposta falada.
- Cerca de 5:02, Peter Ditto, psicólogo social da Universidade da Califórnia em Irvine, em palestra de 2016 (tradução livre): “As pessoas acham que pensam como cientistas, mas pensam muito mais como advogados.”
- Cerca de 5:48, Brendan Nyhan, cientista político, em palestra em Harvard (2012, tradução livre): o padrão dos estudos é “uma resistência às correções justamente no grupo que mais quer não acreditar nelas”.
- Cerca de 9:54, Lula, em entrevista ao Domingo Espetacular (Record), ao ouvir que os números e a sensação das pessoas não batem, compara com a sensação térmica da previsão do tempo: “Eu queria que pro salário fosse assim: tá cem reais, com sensação de…”. Cerca de 10:10: “Está caro porque mudou o nosso hábito de comer, porque o juro está caro”.
Contexto e o outro lado
O que os preços mostram. Um Volkswagen Gol zero-quilômetro custava R$ 20.600 em 2013 e R$ 68.500 em 2023, alta de mais de 200% em dez anos, segundo levantamento da Kelley Blue Book para a CNN Brasil (02/05/2023), reproduzido pela Itatiaia. A consultoria Bright Consulting calcula que o preço médio do carro novo subiu 125% desde 2016, contra inflação de 64% no período; em 2025, pela primeira vez em cinco anos, o carro subiu menos que a inflação (Terra, 14/11/2025; Tabela Carros).
Dívida, juros e bolso. Os juros médios do crédito livre para famílias chegaram a 61,7% ao ano em agosto de 2026, e a inadimplência das pessoas físicas, a 6%, maior nível desde março de 2011, segundo dados do Banco Central divulgados em 29/09 (Agência Brasil, SBT News). O endividamento alcançou 82% das famílias em julho, recorde pelo sexto mês seguido, e 84,9% entre quem ganha até três salários mínimos (CNC, via Agência Brasil e Metrópoles). Na Genial/Quaest de 15/07/2026, 68% disseram comprar menos do que há um ano; 21%, o mesmo; 10%, mais (Diário do Poder, Pardal Tech).
O que a ciência diz. Em 1954, Leon Festinger acompanhou um grupo que esperava o fim do mundo em data marcada; passada a data, os membros mais comprometidos reforçaram a crença e saíram a recrutar. O caso (“When Prophecy Fails”, 1956) deu origem à teoria da dissonância cognitiva (1957), segundo a Wikipédia e a Simply Psychology. Ziva Kunda mostrou em 1990, no Psychological Bulletin, que a pessoa chega à conclusão que deseja desde que consiga montar uma justificativa que pareça razoável (PubMed; Semantic Scholar). Em 2017, Dan Kahan e colegas aplicaram o mesmo problema numérico: com um creme para a pele como tema, os mais hábeis com números acertavam mais; com controle de armas, a polarização cresceu justamente entre os mais hábeis (Behavioural Public Policy; IDEAS/RePEc). Wood e Porter, com mais de 10 mil pessoas e 52 temas, não encontraram o “tiro pela culatra”: correções funcionam, ainda que pouco (Political Behavior, 2019; SSRN). Nyhan, Porter, Reifler e Wood mostraram, em 2019, que checagens corrigem a crença no fato sem alterar a avaliação do candidato (Universidade de Exeter; Universidade de Southampton).
Não é economia, é pertencer. Em “Democracy for Realists” (2016), Achen e Bartels sustentam que o voto nasce de identidades de grupo e lealdades partidárias, e que o eleitor ajusta até a leitura dos fatos a elas (Princeton University Press; LSE Review of Books). Lilliana Mason (“Uncivil Agreement”, 2018) mostra que a hostilidade cresce quando o partido se alinha a religião, raça e cultura (University of Chicago Press; New America). No Brasil, Samuels e Zucco (2018) descrevem o PT como o único partido que virou identidade de massa, com o antipetismo como espelho (Cambridge University Press; Universidade de Minnesota). O Datafolha de 2 a 4/12/2025 registrou 40% de petistas e 34% de bolsonaristas: 74% em um dos dois times (CNN Brasil; O Liberal).
O espelho e a resposta do governo. O viés não tem lado. Nos Estados Unidos, na semana da eleição de 2016, a fatia de republicanos que via a economia melhorando saltou de 16% para 49% (Gallup; Marketplace). Uma meta-análise de 51 estudos com mais de 18 mil pessoas, liderada por Ditto, encontrou viés partidário de tamanho quase igual entre progressistas e conservadores (UC Irvine; Perspectives on Psychological Science, 2019). Do lado do governo, Lula, na entrevista ao Domingo Espetacular exibida em 23/08/2026, citou a queda da inflação e do desemprego e atribuiu a “sensação” de carestia à mudança de hábitos de consumo e aos juros (O Povo; TVT News).
O que funciona e o que mudou depois. David Broockman e Joshua Kalla mostraram na Science (2016) que uma conversa de cerca de dez minutos, em que a pessoa é convidada a olhar pela perspectiva do outro, reduziu preconceito por pelo menos três meses entre 501 eleitores da Flórida (Princeton; NPR). No Datafolha de 28 a 30/09/2026, 78% se dizem totalmente decididos e 19% podem mudar; a certeza do voto é de 88% entre eleitores de Lula e 85% entre os de Flávio (Diário do Grande ABC; ABC+). No 1º turno, em 04/10/2026, Flávio teve 47,03% dos votos válidos e Lula, 45,16% (Poder360; Agência Senado); o 2º turno é em 25/10.
Fatos e fontes
| O que foi dito | Fontes |
|---|---|
| Real Time Big Data (2 a 4/05/2026, 2.000 eleitores): 69% dos eleitores de Lula dizem que a economia melhorou; 83% dos de Flávio, que piorou | CNN Brasil · Diário do Poder |
| Gol 0 km: R$ 20.600 (2013) a R$ 68.500 (2023); carros de entrada mais de 200% mais caros em dez anos (KBB) | CNN Brasil · Itatiaia |
| Preço médio do carro novo +125% desde 2016, inflação de 64%; em 2025 o carro subiu menos que a inflação (Bright Consulting) | Terra · Tabela Carros |
| Juros do crédito livre às famílias em 61,7% ao ano; inadimplência de 6%, maior desde março de 2011 (BC, ago/2026) | Agência Brasil · SBT News · Tribuna do Sertão |
| 82% das famílias endividadas em julho de 2026, recorde; 84,9% até três salários mínimos (Peic/CNC) | Agência Brasil · Metrópoles |
| Genial/Quaest (10 a 13/07/2026, 2.004 entrevistas, divulgada em 15/07): 68% compram menos que há um ano, 21% igual, 10% mais | Diário do Poder · Pardal Tech |
| Festinger: “When Prophecy Fails” (1956) e a teoria da dissonância cognitiva (1957) | Wikipédia · Simply Psychology |
| Kunda (1990): raciocínio motivado limitado pela capacidade de construir justificativa | PubMed · Semantic Scholar · Wikipédia |
| Kahan et al. (2017): creme de pele × controle de armas; polarização cresce entre os mais hábeis com números | Behavioural Public Policy · IDEAS/RePEc |
| Wood & Porter (2019): mais de 10 mil pessoas, 52 temas, sem “tiro pela culatra” | Political Behavior · SSRN |
| Nyhan, Porter, Reifler & Wood (2019): checagem corrige o fato, não a avaliação do candidato | Universidade de Exeter · Universidade de Southampton |
| Achen & Bartels, “Democracy for Realists” (2016); Mason, “Uncivil Agreement” (2018); Samuels & Zucco (2018) | Princeton · LSE · Chicago · New America · Cambridge · Minnesota |
| Datafolha (2 a 4/12/2025, 2.002 entrevistas): 40% petistas, 34% bolsonaristas, 74% em um dos dois lados | CNN Brasil · Diário de Pernambuco · O Liberal |
| Gallup (nov/2016): republicanos que viam a economia melhorando foram de 16% para 49% na semana da eleição | Gallup · Marketplace |
| Ditto et al. (2019): 51 estudos, mais de 18 mil pessoas, viés de tamanho semelhante nos dois lados | UC Irvine · Perspectives on Psychological Science |
| Entrevista de Lula ao Domingo Espetacular (Record), exibida em 23/08/2026; citou queda da inflação e do desemprego | O Povo · TVT News |
| Broockman & Kalla, Science (2016): conversa de 10 minutos, 501 eleitores, efeito por 3 meses | Princeton · NPR |
| Datafolha (28 a 30/09/2026, 2.506 entrevistas): 78% decididos, 19% podem mudar; certeza de 88% (Lula) e 85% (Flávio) | Diário do Grande ABC · ABC+ |
| Lucas Pavanato: vereador de São Paulo (PL) em 13/02/2026; eleito deputado federal em 04/10/2026 com 3.038.438 votos | Times Brasil · Tribuna de Jundiaí · BNews São Paulo |
| 1º turno (04/10/2026): Flávio 47,03% × Lula 45,16% dos válidos; 2º turno em 25/10 | Poder360 · Agência Senado |
Falas, imagens e créditos
- Lucas Pavanato (então vereador de São Paulo, PL), “Desafio na Paulista: governo Lula é bom? Prove!” (YouTube, 13/02/2026): youtu.be/Isph4qViY9k. As falas dos entrevistados são deles; nenhum entrevistado é identificado nesta matéria.
- UC Irvine, School of Social Ecology, palestra de Peter Ditto (01/11/2016): youtu.be/qlwJ1U4jfX4; Berkman Klein Center, Harvard, palestra de Brendan Nyhan (17/07/2012, licença CC BY): youtu.be/K3TRKPSmoZk. Falas em inglês em tradução livre.
- Record, Domingo Espetacular, entrevista com Lula (exibida em 23/08/2026, publicada no YouTube em 24/08): youtu.be/kPsonuFUQJs; CNN Brasil, CNN Novo Dia (02/05/2023) e CNN Prime Time (14/04/2026); g1 / TV Globo, Bom Dia Brasil (11/08/2026); Jornal da Record (26/05/2026). Planos de apoio: Pixabay (licença Pixabay).
- Imagem de capa: Lula no lançamento oficial da campanha de 2026, em São Bernardo do Campo (SP), 16/08/2026, Lula Oficial (Flickr), foto: Ricardo Stuckert, licença CC BY-SA 4.0, via Wikimedia Commons.
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